Thursday, October 2, 2008

Despertar uma nova consciência na humanidade: entrevista ao criador do Boom

Diogo Ruivo, 35 anos, visionário, formado em engenharia, é o fundador da Good Mood que lançou e produziu o conceito Boom.

 

Como se envolveu na organização de festivais como o Boom? De onde 

vem a sua vertente mais ecológica?

 

Diogo Ruivo - Penso que todos os momentos de maior visibilidade que um grupo de seres humanos obtém durante a sua vida tem sempre, na sua origem, um ponto de partida simples e orgânico.

O meu envolvimento com o mundo das artes e filosofias alternativas formou-se ainda enquanto criança. Tive o privilégio de uma educação baseada na experiência e com forte componente de criatividade, que me levaram, em adulto, a envolver-me sempre com projectos culturais, artísticos e inovadores.

Durante toda a minha infância e adolescência viajei extensivamente pelo mundo, o que me trouxe uma paixão pela diversidade e beleza ímpar deste planeta onde habitamos. O contacto com diversas culturas e o convívio constante com a natureza fizeram com que a minha percepção fosse sempre aguçada.

Com o decorrer do tempo, apercebi-me do “impacto” do ser humano. E daí nasceu a necessidade de tomar uma posição relativa às alterações que infligimos ao meio ambiente, e por conseguinte passar a informar os que me rodeiam das necessidades ecológicas básicas.

 

Como pensou na estrutura do Festival, organização, participantes para palestras, etc?

 

O nosso mote é a avaliação e readaptação para uma constante evolução. Tentamos atingir a excelência através de métodos mais sociais e sustentáveis, que nasçam de um novo conceito de entretenimento. Para nós não se trata apenas um meio hedonista, deve fornecer soluções às pessoas.

Como pesquisadores de soluções para o futuro da Humanidade através das propostas do festival - nomeadamente no desenvolvimento de projectos ao nível de saneamento de águas e energia - temos tido sempre o privilégio de estarmos em contacto com alguns dos visionários mais activistas de diferentes sectores, como por exemplo o Ecocentro IPEC do Brasil. As nossas escolhas são o resultado de muita investigação e diálogo com pessoas dotadas de uma visão singular em diversas áreas, desde o design para a sustentabilidade até técnicas e filosofias para relacionamento em grupos humanos, passando por economia verde, enteogéneos, ciências sociais e arte visionária.

 

 

Qual foi o balanço do Boom anterior em termos de festival auto-

sustentado?

 

A edição de 2006 do Boom Festival foi sem sombra de dúvida a de maior sucesso até à data. Pela primeira vez, conseguimos atingir o objectivo de criar um impacto positivo com um evento. Acreditamos que minimizar impactos ambientais é coisa do passado, hoje as acções ecológicas devem influir positivamente no ambiente. Por outro lado, conseguimos manter a nossa política económica e visão de evento de larga escala, totalmente independente do mercado de patrocinadores, que não se encaixam na nossa ética ecológica e social.

Do ponto de vista de infraestruturas, podemos focar três grandes pontos: água, energia e resíduos. Para o primeiro, preocupamo-nos em estudar os ciclos locais de água e desenvolvemos um método sinergético de fechar o ciclo de uso de água do próprio evento. Através de técnicas orgânico-biológicas - como a evapo-transpiração e bio-remedição em lagoas por nós criadas, conseguimos reciclar e fechar todos os ciclos de água iniciados com o Boom. Tornamo-nos assim no primeiro evento de larga escala que recicla todas as águas que consome, nomeadamente nos chuveiros.

Na energia, iniciamos um estudo de dois anos do consumo efectivo do evento que irá culminar com a redução e adopção de diversos sistemas energéticos sustentáveis em 2008. A nossa visão é chegarmos a 2010 com o Boom festival totalmente sustentável a nível energético. Em 2006, focámos o uso de energia sustentável em sistemas fotovoltaicos – tendo os escritórios e cozinha dos trabalhadores sido electricamente alimentados durante 4 meses unicamente a partir do Sol, por exemplo, bem como duas das sete áreas culturais do evento.

 

E nos resíduos e esgotos?

 

Foi também em 2006 que a gestão de resíduos passou a abranger o contacto, informação e educação ecológica do público – formámos assim equipas especializadas em consciência ecológica a que demos o nome de Ecoteam.

A Ecoteam, conjuntamente com os serviços municipalizados e outras equipas contratadas, conseguiram manter todo o recinto impecavelmente limpo durante toda a semana do evento, e em simultâneo procederam à reciclagem de quase 30% de todos os resíduos produzidos antes, durante e após o evento. Por outro lado, cerca de 60% da matéria orgânica produzida no evento foi compostada, estando o solo proveniente desta compostagem guardado para fertilizar os jardins do Boom festival 2008.

 Iniciámos também o estudo e aplicação de sanitários secos compostáveis. Tendo os resultados deste teste piloto superado em muito as nossas expectativas. Conseguimos uma aceitação total por parte dos participantes do evento que elegeram os ditos sanitários como os melhores já usados, bem como tendo conseguido diminuir drasticamente o esforço extra para as ETARs locais e, por conseguinte, o meio ambiente circundante.

A matéria orgânica resultante destes sanitários foi posteriormente compostada e em seguida processada por minhocário. No final, obtivemos Húmus do mais alto valor mineral. Assim conseguimos mais uma vez fechar um ciclo naturalmente e com responsabilidade ecológica. Evitámos impactos naturais e ainda gerámos fertilizantes e húmus.

 

Que outras iniciativas tornam este festival único na sua vertente 

ecológica?

 

Conseguimos há já algum tempo desmistificar o conceito de que ter éticas e atitudes sustentáveis significa um esforço económico desmesurado. Pelo contrario, há um ganho incalculável no futuro.

Em termos práticos, temos fomentado toda a montagem e construção do evento com métodos, matérias e técnicas sustentáveis. Procuramos sempre criar uma ética de trabalho socialmente equilibrada. Apoiamos entidades e pessoas que ainda detenham sabedoria arquétipa de construção e design de estruturas sustentáveis - como por exemplo a contratação de arquitectos de Bali em 2006 para construírem com bambú.

Simultaneamente, temo-nos tornado também num ponto difusor destas sabedorias e soluções. Iniciamos, em parceria com o Ecocentro IPEC do Brasil, uma série de formações e consultorias nas áreas de Permacultura, bioconstrução e bioengenharia, cursos estes que serão lecionados inclusive durante a construção do próximo Boom.

 

 

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