Thursday, October 2, 2008

Boom Festival: um exemplo de nova economia

Os criadores do Boom, um festival de electrónica nacional, decidiram ter um evento auto-sustentado, ecológico e inovador para criar impacto num novo paradigma da consciência. Veja as lições a retirar desta mega organização


A pacata cidade de Idanha-a-Nova está agitada, apesar do calor de Agosto. Nos multibancos e cafés, bandos de extraterrestres, com cabelos em corda (deadlocks), corpos pintados e tatuados, aguardam pacificamente. Contrariamente a outros festivais do país, não há garrafas espalhadas e lixo por todo o lado. A poucos quilómetros, perto da barragem, decorre o Boom Festival, um evento de cultura independente. “Boom is a no-corporate logo area”, anunciam as primeiras páginas do livro lançado este ano para comemorar os 10 anos do festival. Não há patrocínios nem empresas, e no entanto uma politica de voluntariado e organização, bem como o aproveitamento de novas técnicas de reciclagem e geração de energia são um case-study para o mundo empresarial mais ambicioso.

No início de 2008, por exemplo, começou a recolha de óleo vegetal usado domestico a utilizar como combustível nos geradores do festival de Agosto deste ano. O projecto “O Seu Óleo é Música” significa que a energia para manter uma semana de festival num local completamente isolado virá desta reciclagem, para além de energia solar. “Iniciamos a recolha de óleos vegetais usados nos cerca de 5800 domicílios de todo o concelho para posterior processamento e filtragem. Este projecto assenta numa perspectiva de intervenção comunitária  - tanto dos efeitos nocivos dos óleos usados como suas possíveis soluções sustentáveis - passando pela diminuição da carga de geração de carbono durante o Boom Festival 2008. Pretendemos que todas as áreas de grande consumo eléctrico do evento sejam providenciadas por geradores que irão consumir óleo vegetal usado da própria região.  A nossa visão é mais uma vez criar uma economia positiva a nível de créditos de carbono, juntando sempre o factor educacional no pacote total de acção”, explica Diogo Ruivo, produtor do evento.


As casas de banho são compostáveis, os esgotos tratados. A Câmara de Idanha agradece, e já em 2006 recebeu adubo orgânico gerado pelo festival. O evento, dedicado à musica electrónica e o despertar de uma nova consciência planetária, desenvolve projectos pioneiros na área da sustentabilidade ambiental. Conferências durante o dia sobre permacultura, calendário maya, shamanismo, yoga, massagens, tendas de dança, espaços para “estados alterados de consciência” e muito mais transformam o que poderia ser um acontecimento explosivo num manifesto de cultura alternativa pela paz e pela reunião das diversos tribos de inovadores espelhadas pelo planeta.

Visualmente, o festival é uma inspiração que traz os maiores inovadores da arquitectura, design e artes em geral para o palco. Estruturas de bambu que vieram da Indonésia, tendas circulares geodésicas (esfera dividida em triângulos), explorações criativas do mundo inteiro e outros colocam este evento português no topo dos mais procurados do mundo, a par do Burning Man (Estados Unidos) e Fusion (Alemanha).

“Eventos como o Boom tem um potencial de transformação enorme. A reunião de milhares de pessoas por um tempo limitado é uma oportunidade de reflexão sobre aspectos comunitários: como nos relacionamos, como ocupamos o espaço e o que deixamos, qual a nossa função ecológica e como satisfazer as necessidades de sobrevivência num equilíbrio com outras espécies?”, explica André Soares, 42 anos, engenheiro de ambiente, especialista em permacultura que criou aldeias, estudou na Austrália e trabalhou largos anos nos Estados Unidos. É o responsável pela sustentabilidade do festival ou o “entretenimento sustentável”, e pelas infraestruturas de choque a instalar nestes eventos, porque estes grupos poluem tanto como cidades, pela sua densidade. “O Boom Festival gera 12 toneladas por dia de excrementos humanos, e estes resíduos podem ser devolvidos ao solo de forma segura, com tecnologias simples e eficazes”, explica Soares, também consultor do MIT, ONU e Banco do Brasil. A idéia é que as pessoas façam uma viagem, para Idanha-a-Nova, em que restauram o seu equilíbrio com a natureza.

Um festival em que as pessoas se divertem é também uma oportunidade de formação. Quando uma casa de banho normal é usada, 20 litros de água potável são escoados. Na versão compostável, seca, os resíduos, tapados com serradura, caem para uma câmara onde um processo biológico elimina micro organismos. Este composto é depois levado para camas de minhocas, que digerem o produto e o transformam em húmus – cinco metros cúbicos por ciclo. Todas as águas usadas no festival, em duches e cozinhas, passa por jardins húmidos, onde se evapora num leito de plantas aquáticas que removem minerais. Essas plantas podem mais tarde ser usadas como fertilizantes. A água que resta fica em charcas, com micro organismos que continuam os ciclos biológicos de digestão do excesso de sabonete e outros químicos. Depois de algum tempo, cria-se um ecosistema de plantas e animais, e a água pode ser usada para regas.


O que surpreende num evento desta dimensão é o facto de não haver papeis e lixo. As pessoas decalcam-se para entrar nas tendas de dança, cobertas de tapetes. Um Eco Team de 200 pessoas limpa constantemente o local. Muitos são voluntários que aparecem na reunião da manhã, e trabalham a troco de refeições grátis (vegetarianas por sinal, com profusão de sumos e batidos verdes) – é lhes-dado um prato especial que conservam (feito de barbas de milho e reutilizável, na medida do possível).

Finalmente, o Liminal Village, área do festival onde as conferências tem lugar durante o dia, com projecções de filmes também, é o local onde se podem descobrir contactos com os especialistas mais avançados na arquitectura ecológica, permacultura, aquacultura, sistemas biológicos que podem ser replicados no mundo urbano e estruturas de gestão de pessoas – com custos reduzidos. As lições do Boom aplicam-se num contexto visionário, e podem ser uma boa plataforma para futuras empresas de sucesso na inovação.

 


 

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